29.maio.2010

Ele é preguiçoso demais. Sempre fora. Anda cheio de coisas acumulando pra resolver, dessas coisas que se resolvem com dinheiro, dessas que se resolvem ficando um pouco sozinho, dessas que só muita companhia e também dessas que só o tempo resolve. Ele, como todo bom preguiçoso, só resolvia uma coisa por vez, acontece que tem anos que anda enroscado com a famosa questão do órgão que bombeia o sangue, aquela interminável, que as vezes tão boa e as vezes tão ruim. Nesse quesito ele nunca tirara A. “Estar seguro por completo nessa matéria é certeza de engano” é o que sempre lhe diziam. Cansado ele enfiou a “cabeça” dentro daquele “balde” d’água, mas não como quem quer esfriar a cabeça, como quem quer acordar pra outras questões. Lá ficou durante muito tempo, muito muito tempo. Não queria sair dali. Seu corpo tremia de frio e seu peito já pedia mais ar. “Preguiça de levantar a cabeça” falava pra si mesmo. Sua faringe parecia que ia explodir com tanta falta de ar. Foi quando abriu os olhos e por um instante achou ter enfiado, na verdade, a cabeça no mar! Ele pode ver coisas impossíveis de se ver em qualquer “balde que se enfiei a cabeça”, talvez essas coisas sejam como o que vemos nos sonhos estranhos. Mas talvez não. O que ele viu não cabe em palavras, eram tantas imagens que ninguém poderia descrever, ainda mais porque no exato instante que se identificava algo aquilo rapidamente já assumia outro aspecto. Tudo era desordenado, curioso e parecia carregar algum segredo, como palavras entre aspas. Num rompante ele tirou a “cabeça” de dentro do “balde” e puxou o ar com a boca tão aberta mas tão aberta que chegou a estralar a mandíbula. Também fez aquele som que as pessoas esperam que se faça numa situação dessas. Olhou ao redor e tudo parecia como antes. Parecia. Sentou e decidiu escrever um romance, mas um romance mesmo, sobre uma historia de amor. AMOR. “Porque todas as historias de amor que existem são na verdade historias de paixões” como ele mesmo disse. “E agora são essas outras que me interessam.” Um amigo publicitário jurou que o livro não iria ter leitores.

Ah, dizem que o “balde” sempre teve substancias químicas, alucinógenas. Talvez estejam certo, talvez não…

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23.maio.2010

Tudo começou com as galinhas. Ele queria dar um jeito de fazer o tempo não passar. Chegou a causar a morte de vinte e três. Hoje vive só, encostado, sem se ocupar de absolutamente nada, evita os mínimos movimentos. Na sua perna esquerda é possível observar um principio de musgos sob o tom acinzentado que sua pele adquiriu.

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Aos 26 anos ele pensou que podia encontrar lá fora o que não achou por aqui. Desde então muda de ano em ano de pais. De mês em mês de roupa. De dia em dia de opinião.  Frequentemente confunde o próprio nome, começa todas as frases com “talvez” e tem crises constantes de delírio.


curtinhas

19.maio.2010

O carro ainda fazia a curva quando Carlos desejou estar dirigindo o novo modelo. Quase fui atropelado.

Hoje o jornal não anunciou morte nenhuma. Com medo as crianças preferiram não sair de casa.

O dia só quer que a noite chegue pra acordar num outro dia como se ainda fosse novo como ontem.


blUU!

19.maio.2010

Pedras cinzas

E brasas e azas cruzadas

Cadelas mexendo as

cadeiras

quebradas

em ruas escuras

meninas nuas

posadas sem graça

as moscas

voando em bares

onde os relógios pedem

novos ares.

Chorou o tal do Deus quando

pra outros calcanhares

suas veias sujas

foram correr.

Mantenha seu pé descalço

Quem sabe?


4.maio.2010

Oh filhinha volta pra casa
que o dia já escurece.
Menina que brinca de noite
No dia seguinte esquece.

O mãezinha deixa de mazela
Vai brinca lá com o pai.
Senhora que muito briga
Acaba dando formiga!

Que coisa mais gracinha.
Me diga a sua graça?
Menina de menor
É fruta que não passa.

Nina é como me chamam.
Mas me desculpa,
MeNinas não tem a noite inteira,
Querem casa, comida, piscina e passadeira.

-Boneca eu tenho até caranga!

-A julgar por esse molho na manga…

-Comidinha lá de casa.

-Mamãe quem fez?

Ora, aonde quer chegar?
Princesa que muito vasculha
Acaba dormindo com’a agulha.

Menino que almoça em casa
Não sai debaixo da asa.

Já vi que é minha hora
De partir.
Muita espionagem
É coisa de quem quer dormir.

Rapaz
Para de fingir linhagem
E vamos logo pro despir!